Movimento que nasce e cresce nos Estados Unidos desperta debate sobre inclusão, laicidade e saúde mental no ambiente de trabalho
Biblically Responsible Investing, ou em português, empresas biblicamente responsáveis, é um movimento que vem crescendo nos Estados Unidos. Entre os principais nomes desse movimento está o de Robert Netzly, fundador e CEO da Inspire Investing, a maior gestora de ETFs de investimento com base em valores cristãos do mundo, com cerca de US$ 2 bilhões sob gestão. Pelo mundo, mais de 25 mil negócios estão alinhados a essa visão. No Brasil, ainda não há dados oficiais sobre empresas, mas sabe-se que o número de evangélicos vem crescendo ano a ano no país, ultrapassando a marca 47 milhões segundo dados do Censo de 2022.
Autor do livro Biblically Responsible Investing: For God’s Glory And Your Joy (Investimento biblicamente responsável: para a glória de Deus e sua alegria), Netzly defende que esse “novo ESG” seja pautado exclusivamente nos princípios bíblicos como obediência a Deus. Apesar da ideia carregada de boa intenção como justiça, amor ao próximo e honestidade, a expansão de empresas guiadas por princípios religiosos conservadores pode colocar em risco avanços importantes relacionados aos direitos civis, respeito à igualdade de gênero, à inclusão de pessoas LGBTQIA+ e à valorização da diversidade.
Ao se basearem em interpretações restritas de textos bíblicos para definir políticas internas e decisões de negócio, essas organizações podem acabar perpetuando práticas excludentes, comprometendo o ambiente de trabalho e reduzindo a liberdade individual de seus colaboradores, além de comprometer a saúde mental da equipe. Isso tende a criar espaços menos diversos, com menor potencial de inovação e maior propensão a conflitos éticos, religiosos e até legais.
Para Mariana Holanda, primeira diretora de saúde mental do Brasil, psicóloga e Diretora de Inovação & Relações Corporativas da Norte Saúde Mental, esse tipo de abordagem pode enfraquecer a lógica do ESG, ao priorizar valores religiosos em detrimento de critérios amplamente reconhecidos como centrais para a sustentabilidade corporativa. “Questões como justiça social, proteção ambiental e equidade nas relações de trabalho podem ser deixadas de lado, dando lugar a agendas baseadas em convicções pessoais” , explica ela.
Além disso, Mariana lembra que “como resultado, há o risco de comprometimento da reputação dessas empresas no cenário internacional, além de possíveis choques com legislações que prezam pelos direitos humanos e pela não discriminação. Esse movimento pode, portanto, dificultar a construção de ambientes mais equitativos, éticos e socialmente responsáveis e, mais, pode fazer toda a luta de conscientização retroceder nos negócios”.
Mariana finaliza lembrando que esse tipo de empresa pode entrar conflito com a Constituição Federal do país, que afirma que o Estado é laico, e a CLT, por exemplo, tem a proibição de discriminação. Esses são alguns dos exemplos que reforçam o aspecto jurídico da polêmica. “Ao adotar práticas excludentes baseadas em religião, essas empresas podem enfrentar ações trabalhistas e processos por discriminação.”
Sobre Mariana Holanda: Mariana Holanda é graduada em Psicologia, com MBA em Gestão Empresarial, facilitadora internacional de Segurança Psicológica de Times, e há mais de 11 anos atua na área de Gente, Gestão e de Desenvolvimento de Pessoas. Foi a primeira Diretora de Saúde Mental do mercado, dentro de uma grande e reconhecida empresa multinacional, e participou ativamente dos processos de transformação cultural e gestão de conflitos, liderando times de alta performance, e trazendo a importância da sustentabilidade humana para dentro da estratégia das organizações.